Amor embrulhado

Tem dias que temos a sorte de compreender algum fato da vida. Vivi um desses dias quando tentava entender a razão de eu ter sofrido agressões emocionais de pessoas tão próximas a mim. Foi como se eu viajasse mentalmente para fora do meu próprio ser para tentar a possibilidade de entrar “no ser” de quem me magoara. De certa forma acho que consegui, e foi uma viagem reveladora:

Vi como num filme que se formava à minha frente, as aparentes crenças que eles tinham, as possíveis dificuldades que tiveram na vida por conta dessas mesmas crenças, as tentativas e intenções, corretas ou incorretas, de trilhar seus caminhos, as reações a tudo isso que provavelmente sentiram e viveram, suas escolhas, enfim, em meio às possíveis oportunidades que tiveram, com suas coragens e seus medos.

Para a coisa dar certo foi necessário eu não julgar. Não julguei nada e nem pensei no que eu sentia. Não pensei na minha dor, a deixei de lado por um tempo. Apenas quis ver o cenário, e quando isso aconteceu, quando eu coloquei de lado a dor, percebi que podia de fato olhar para tudo de um modo muito mais claro.

Nessa viagem matei um pouco do meu medo e como resultado encontrei amor.

Acredito que o contrário do amor seja o medo, porque o medo é o que nos impede de fato de amar. E não falo da paixão ou jogos de amor de filmes e novelas. Falo do sentimento fraternal que universalmente entendemos e sentimos, mas que por um lapso mental acabamos perdendo de vista a maior parte do tempo. Falo de algo que cada um de nós tem dentro de si, como uma semente do bem, uma semente que nos faz humanos, nos faz ajudar pessoas que não conhecemos, nos faz lutar pela vida do próximo.

O medo nos impede de amar porque funciona como uma barreira muito dura que pode até proteger de certa forma, mas que não resolve muito porque também tira o ar. Logo o medo é a antítese do amor. E a gente precisa de muita coragem para amar de fato e se colocar de verdade no lugar do outro.

Precisamos nos despir do que nos impede de amar.

Quando parei de pensar em minha dor e com amor olhei para quem me magoou, como se eu pudesse ser essas pessoas sem julgá-las, todas as mágoas, dores e medos que eu tinha, saíram de mim. Eu me despi de tudo isso, no mesmo instante. E quando nos despimos disso tudo, sobra em nós o que sempre houve em nós: o amor. Ainda, foi apenas porque me despi disso tudo que eu pude entender e sentir de verdade o amor que havia neles. A mágoa e a dor nos causa medo e o medo nos impede de amar.

Por estar presente em nós, na porção mais íntima do que somos, o amor se espelha nas coisas e dorme em pequenos compartimentos de tudo o que fazemos. É que muitas vezes esses compartimentos ficam tão escondidos que o amor parece nem existir. Mas existe. Mesmo que sonolento e grogue. Existe sim, em tudo.

Assim, o amor existe também nas intenções boas que resultam em ações ruins; na afobada ação de proteção que acaba em ofensa; na ignorância e medo do desconhecido e da ameaça do diferente, que irracionaliza, e por isso nos tornamos reféns da cruel incapacidade de realizar o que poderia ser mais útil e bom para todos.

Por medo, trocamos um abraço ou uma palavra mais doce por uma ofensa escolhida a dedo, ou o terrível silêncio perturbador, arquitetado para ser exatamente isso, terrível e perturbador.

Sei que é difícil ver amor nisso tudo, mas eu vejo. Ele só está embrulhado por toda essa confusão que criamos, como uma distração da realidade que nos dói.

E não é simples, claro. Quem consegue ver o que é melhor e mais útil para todos sempre? Ou, quem tem a sorte de conseguir fazer isso ao menos uma vez diante de uma crise que nos cega de medo?

Quando eu me despi de tudo o que me sufocava, eu finalmente consegui entender o que o Senhor Buda disse com a frase “seja ninguém”, já que o que chamamos de “eu”, de “meu”, é um monte de camadas e camadas de puro medo.

Com esse processo cheguei a um veredito libertador: eu também poderia ter agido exatamente como eles se eu fosse eles. Eu magoaria, agrediria, partiria o coração de quem eu amo, de quem me ama, simplesmente por ter meu amor embrulhado pelo medo.

Esse amor embrulhado ofusca e distorce nossa visão sobre as pessoas, então o que conseguimos ver delas sempre depende de quanto medo temos. Muito medo, muita distorção. Além de ofuscar a nossa visão, o amor embrulhado também nos sufoca. E se não fizermos nada nunca, há perigo desse sufocamento ser fatal. Por outro lado, quando avaliamos a possibilidade de desembrulhar nosso amor e o fazemos, esse amor se espalha para todos sem perder sua força, como a luz do sol.

Sei que há pessoas muito tóxicas e perigosas no mundo, que têm seu amor embrulhado há tanto tempo e com tantas camadas de medo, que precisam de outro tipo de renovação para enxergarem e repartirem seu amor novamente. Dessas, talvez precisemos nos manter bem distantes.

Mas acredito que a grande maioria das pessoas que nos rodeiam, nossos pares, parentes, amigos, vizinhos, ou mesmo alguém que encontramos na rua, talvez deixem de ser o que “parecem para nós” se tentarmos nos despir de nosso medo um pouquinho para entendê-los.

Depois desse meu processo algo muito interessante aconteceu: minhas dores de mágoa ficaram menores, quase desapareceram, e você sabe, quando a vestimenta fica muito pequena ela nem cabe mais na gente.

Não é fácil despir-se assim, requer coragem e treino. Mas o amor está aí, dentro de nós, pronto para ser vivido e repartido, se permitirmos.

Basta começar a desembrulhar.

guida.ribeiro

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